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Brava gente brasileira: mapa astral de André Janones

Foto do escritor: Mariana Campos
Mariana Campos
há 34 minutos
11 min de leitura

O destino é coletivo


A história da astrologia é também a história das sobrevivências. Reconhecer os movimentos dos astros, a sucessão das estações, a época das cheias e os períodos de plantio e colheita era uma maneira de organizar a vida na Terra e garantir as condições materiais de existência de uma população. Das correspondências naturais entre céu e terra foi se elaborando uma linguagem simbólica que ampliou a interpretação astrológica para outros assuntos da vida humana, inclusive a sobrevivência dos reinados, das dinastias e das cidades. Do cultivo da terra ao governo dos povos, a astrologia tem sua raiz na noção do destino como algo coletivo.


Antes que se difundisse a prática de levantar mapas natais individuais, os astrólogos eram solicitados para investigar acontecimentos que poderiam comprometer a ordem da vida pública. Quando uma rainha daria à luz um herdeiro? Que sorte aguardava um exército antes de partir para a guerra? Fazer o mapa de um rei era, em alguma medida, perguntar pelo destino de um reino inteiro. Esse ramo é chamado de Astrologia Mundana, ou Astrologia Política, e nada mais é do que Astrologia, muito anterior à centralidade que a Astrologia de Natividades (mapa de pessoas) ganharia depois, sobretudo com a concepção moderna de indivíduo. O céu, afinal, não foi sempre o lugar onde se procuravam respostas para os dramas particulares da existência.


O fio que teceu uma vida, teceu todas


Na mitologia grega, as Moiras são as três fiandeiras encarregadas de tecer, medir e cortar os fios da vida. Podemos imaginar que cada existência seja um fio distinto, separado dos demais por um corte, mas todos participam de uma mesma trama, na qual a vida de uns atravessa a de outros. O fio de um rei, por exemplo, pode arrastar consigo os fios de um reino inteiro. Os destinos individuais, ainda que singulares, são fios da mesma trama, drama.


É dessa perspectiva que me interessa estudar o mapa natal de André Janones. O destino de uma figura política ultrapassa a singularidade de sua existência, uma vez que suas ações, palavras e decisões participam dos acontecimentos de seu tempo.


O Ministério dos Mistérios


Recentemente, escrevi uma mensagem para André Janones, apresentando-me como integrante de uma espécie de Ministério dos Mistérios (reivindico a minha pasta!). Contei que a escola de astrologia da qual faço parte, a Saturnália, havia publicado, sob autoria de João Acuio, O Horóscopo de Karl Marx. Enviei uma fotografia do livro e mencionei a coincidência natalícia: Janones e Marx nasceram em 5 de maio. As revoluções serão solares! Mas faltava uma informação indispensável para avaliar o mapa de Janones: seu horário de nascimento. Fiz o pedido e o nosso Ministério recebeu a notificação: 10:45 da manhã.


“Pessoal, esse é o áudio mais importante da minha vida desde o meu nascimento!”


André Janones nasceu em 5 de maio de 1984, em Ituiutaba, Minas Gerais. Com o horário informado pelo próprio nativo, podemos determinar o ascendente, o Meio do Céu e a divisão das casas astrológicas, elementos fundamentais para avaliar uma natividade.

No julgamento astrológico, o ascendente e o Meio do Céu estão entre os primeiros lugares que examinamos. O primeiro representa o próprio nativo, seu corpo e suas motivações; o segundo, seus feitos no mundo, a profissão, a imagem pública e suas aspirações. Quem sou eu? O que estou fazendo aqui? “Existirmos, a que será que se destina?” As respostas astrológicas dependem dos signos que ocupam esses lugares e dos planetas que os governam ou ali se encontram.



Danones: Ascendente em Câncer, Lua em Câncer


Às 10h45 daquele 5 de maio de 1984, Câncer ascendia no horizonte de Ituiutaba, anunciando um nativo sob os desígnios da Lua. Sendo Câncer um signo regido pela Lua, é ela quem passa a representar Janones na narrativa de seu mapa natal. E essa mesma Lua se encontra em Câncer, seu domicílio, condição que lhe confere força e recursos para exercer suas significações.


A astrologia é, antes de tudo, um saber sobre as luzes do céu, e entre todos os astros, Sol e Lua recebem especial atenção por serem os dois luminares, significadores da vida, da vitalidade e do brilho. A luz também participa das significações de reconhecimento e notoriedade. O Sol está tradicionalmente associado à realeza, às figuras nobres e àqueles que ocupam posições de autoridade, enquanto a Lua se relaciona com o povo e as condições ordinárias da vida terrestre. A Lua, aliás, vive pertinho da Terra, desse lugar onde tudo acontece. É pop, gente como a gente.


A condição de domicílio da Lua de Janones favorece justamente o repertório da popularidade, da afetuosidade e da identificação. Curiosamente, Lula também tem a Lua em Câncer, gente de mãe gentil. Outra particularidade está na posição do Sol natal de Janones, em Touro, signo no qual a Lua encontra sua exaltação, uma dignidade essencial que confere especial honra a um astro. É como se o próprio Sol de Janones, significador das autoridades e dos governantes, exaltasse os atributos lunares da proximidade e da empatia. Uma combinação sugestiva para alguém cuja atuação pública se tornou tão ligada à figura de um presidente reconhecido também por sua origem simples e seu apelo popular.


Mas a Lua dispõe de outros atributos que escapam ao repertório mais difundido sobre Câncer. O signo costuma ser descrito como caseiro, recolhido, afeito à intimidade doméstica, às vezes quase inerte em sua própria concha. Erro crasso, pois a Lua é justamente o mais veloz dos sete “planetas” tradicionais. Ela faz, em poucos dias, o que os demais levam semanas, meses, anos. Além disso, Câncer é um signo cardinal, movente, disposto a inaugurar movimentos. E agora a gente já sabe como, em poucos dias, a governança da Lua revoluciona o destino de um país.


Uma Lua veloz, num signo movente, em seu próprio domicílio. No mapa de Janones, essa configuração favorece a mobilidade, a rapidez em estabelecer vínculos e conexões, a capacidade de aproximar-se de outras pessoas e produzir identificação. Empatia, afetuosidade, elasticidade subjetiva: atributos que não se deixam reduzir ao sentimentalismo ou à vida doméstica.


A Lua também governa a nutrição, a alimentação e a primeira infância. Eis que um dos apelidos atribuídos a Janones, “Danones”, evoca um alimento molinho, de criancinha, sintomaticamente lunar. O apelido nasce de uma brincadeira com seu sobrenome, mas o significante encontra uma vizinhança muito apropriada com o repertório do astro que o representa.


Mercúrio em Áries, no ponto mais alto do céu


O Meio do Céu de Janones está em Áries, signo que ocupa sua Casa 10, lugar dos feitos públicos e da profissão. Ali encontramos Mercúrio, conjunto ao Meio do Céu. Essa condição, chamada de angularidade, confere ao planeta especial destaque, visibilidade e força de atuação. Convém, portanto, prestar atenção ao mensageiro que ocupa o alto de seu céu.


Mercúrio está associado ao Hermes mitológico, deus mensageiro que estabelece conexões entre mundos, levando notícias e recados entre o Olimpo dos deuses e a Terra dos mortais. É também o planeta das estradas, dos transportes, do comércio, das viagens e de tudo aquilo que permite passar de um lugar a outro. O transporte de mercadorias, o deslocamento das pessoas e a transmissão das mensagens dependem de caminhos que ponham em contato lugares antes separados. Mercúrio habita essas passagens, ele é a rua, transita pelas encruzilhadas e faz circular aquilo que, sem sua intervenção, permaneceria estático ou inacessível.


Esse Mercúrio elevado ao lugar dos feitos públicos está em Áries, primeiro signo do zodíaco, de fogo cardinal. É a faísca que inaugura o movimento, o ímpeto que incendeia o começo. Não deixa de ser sugestivo que alguns dos bordões mais reconhecíveis de Janones sejam “URGENTE!” e “EXPLODE!”. Suas mensagens, sob o signo de Áries, não parecem dispostas a esperar. Como lacaniana que sou, é impossível que eu não escute essa convocação na própria palavra URGENTE: Gente é urgente! É urgente ter gente… “AGORA eu quero 4, eu quero 5, eu quero 10 milhões de pessoal no canal!”. Assim, através de um único significante, fomos convocados às redes e às ruas, aos berros do carneiro. “Chama mais gente!”, ele nos inflamou!


O horóscopo da Fortuna


Outro elemento reforça a importância dos assuntos mercuriais: a Parte da Fortuna, localizada em Virgem, na Casa 3. Na astrologia antiga, a Fortuna foi considerada uma espécie de segundo ascendente, também chamado de horóscopo lunar, e podemos compreendê-la como um duplo da Lua. Gosto de chamá-la de Horóscopo da Fortuna, sobretudo porque sua mobilização pode participar de acontecimentos pelos quais o nativo parece nascer novamente dentro de sua própria história. Interessa-me pensar a Fortuna para além do acaso favorável, como uma possibilidade de mudança de condição, um nascimento que se realiza dentro da própria vida, quando certas circunstâncias nos destinam a outros caminhos.


A Fortuna de Janones está em Virgem, signo governado por Mercúrio, e na Casa 3, tradicionalmente associada às mensagens, aos irmãos, aos parentes próximos, às pequenas viagens e aos lugares vizinhos. Para compreender essa reunião de assuntos, convém lembrar que a astrologia é anterior aos nossos sistemas de comunicação. Um mensageiro podia chegar de um reino vizinho anunciando a passagem de uma caravana festiva ou trazendo a notícia de que outro governante iniciaria uma guerra. Convites e ameaças percorriam as mesmas estradas. E o que têm em comum os irmãos, os bairros e as cidades vizinhas? A proximidade. A cama ao lado, a cidade ao lado, o reino depois da estrada. Uma geografia das vizinhanças, das distâncias suficientemente próximas para que alguma coisa possa circular entre elas.


A Casa 3 é também o lugar do júbilo da Lua, isto é, uma casa na qual a tradição reconhece especial afinidade com esse planeta. A Fortuna reúne, portanto, significações lunares, por sua própria natureza e pela casa que ocupa, e mercuriais, por encontrar-se em Virgem. Há ainda uma correspondência particular: a Fortuna estabelece uma antíscia com Mercúrio natal, em Áries. As antíscias são relações zodiacais fundadas na simetria da luz solar em torno dos solstícios, distintas dos aspectos planetários mais conhecidos, como o sextil ou o trígono. É como se dois pontos compartilhassem, por espelhamento, um mesmo quinhão de luz.


A insistência desses significadores permite imaginar uma avenida do destino pavimentada pelos assuntos de Mercúrio: estradas, conexões, recados, deslocamentos, caminhos pelos quais alguma coisa encontra passagem e ganha existência. No mapa de Janones, a comunicação parece ser uma das principais vias pelas quais sua história se ergue e se reinventa. E essa imagem da estrada participa materialmente de alguns episódios de sua biografia.


Marte em Escorpião: verás que um filho teu não foge à luta


Mas quem governa Áries, signo que ocupa o Meio do Céu de Janones? Marte, o deus da guerra, aquele que convoca para o campo de batalha. Na astrologia tradicional, Marte rege Áries e Escorpião, e é justamente em Escorpião que o encontramos no mapa de Janones, também domiciliado. Assim, os regentes dos dois lugares mais importantes de seu mapa encontram-se especialmente fortes: a Lua, que representa o próprio nativo, e Marte, responsável pelos assuntos de sua atuação pública.


Marte é um astro de natureza quente e seca, inclinado à ação, ao conflito e ao embate, embora seus dois domicílios ofereçam diferentes modalidades de combate. Áries, signo de fogo cardinal, inaugura a batalha, enquanto Escorpião, de água fixa, dispõe de outros recursos para sustentá-la. A estratégia escorpiana pode ser silenciosa, infiltrada, persistente, avançando sem anunciar todos os seus movimentos. Marte, nesse signo, não precisa fazer alarde de cada batalha.


Não deixa de ser sintomático que o repertório público de Janones inclua os títulos de “general” e de comandante do “exército do Lula”, além de convocações e palavras de ordem altamente marciais. Mercúrio, no Meio do Céu em Áries, transmite as mensagens, enquanto Marte governa os assuntos da guerra. Nas eleições presidenciais de 2022, Janones participou da articulação das redes digitais em torno da candidatura de Lula, fazendo da circulação das mensagens um território de disputa e invenção de estratégias políticas. O mensageiro não se contentava em percorrer as estradas: também participava da abertura de novos caminhos.


As progressões secundárias: três momentos mercuriais na vida de André Janones


Até aqui, vasculhamos o mapa natal de Janones, principalmente o ascendente e o Meio do Céu, seus regentes e os planetas que ocupam esses lugares. Mas um mapa natal guarda uma complexidade que acompanha a vida inteira, e seus assuntos se manifestam em diferentes momentos. Para investigar quando determinadas condições ganham prioridade ou encontram ocasião para se realizar, recorremos às técnicas de previsão astrológica.


Nas Progressões Secundárias, cada dia depois do nascimento corresponde simbolicamente a um ano de vida. Para estudar os acontecimentos dos 42 anos de uma pessoa, por exemplo, observamos o céu aproximadamente 42 dias depois de seu nascimento. A técnica privilegia quatro pontos vitais: Sol, Lua, ascendente e Meio do Céu, associados à luminosidade do mapa. Suas novas relações com os planetas natais podem testemunhar os momentos em que determinados assuntos ganham força, como se a passagem do tempo dirigisse a luz para aquilo que, desde o nascimento, aguardava uma ocasião para ser visto e vivido.


No mapa de Janones, destaco três momentos associados a Mercúrio, desde um episódio de sua juventude até os acontecimentos políticos recentes.


1. A Lua encontra Mercúrio: o jovem cobrador de ônibus (2003–2006)



Entre 2003 e 2005, Janones trabalhou como cobrador de ônibus, ocupação que consta de sua biografia oficial na Câmara dos Deputados. Nesse período, a Lua progredida atravessava Áries, sua Casa 10, onde se encontra Mercúrio natal, significador dos transportes e da circulação. Essa passagem lunar, que se repete aproximadamente a cada 28 anos, ilumina justamente o planeta associado aos seus feitos públicos.


2. Mercúrio ganha dignidade: da estrada à mensagem (2017–2018)



Na virada de maio para junho de 2017, aos 33 anos, Mercúrio progredido ingressa em Gêmeos, seu domicílio, adquirindo dignidade essencial. Em maio de 2018, Janones ganha projeção nacional após publicar um vídeo gravado na BR-365, durante a greve dos caminhoneiros, que alcança cerca de 14 milhões de visualizações. O planeta das mensagens e dos transportes ganha dignidade, e uma mensagem gravada na estrada alcança o país, e seguiria alcançando, mais ainda.


3. O Sol ilumina Mercúrio: as eleições de 2026



Aos 42 anos, em 2026, o Sol progredido alcança 26° de Gêmeos, estabelecendo sextil com Mercúrio natal, a 26° de Áries, conjunto ao Meio do Céu. Há recepção mútua: o Sol está no domicílio de Mercúrio, enquanto Mercúrio ocupa o signo de exaltação solar. Num nascimento diurno, o principal luminar ativa, por progressão, o planeta que desde o nascimento governa os assuntos da comunicação e ocupa o lugar dos feitos públicos. É o que estamos vivemos, ao lado de nosso general das redes.


Destino em rede


Mercúrio ocupa o ponto mais alto do mapa natal de Janones, e as progressões secundárias examinadas revelam três momentos em que seus atributos ganham novas condições de realização. Também a Parte da Fortuna, situada numa casa de mensagens, num signo mercurial e em antíscia com Mercúrio natal, reforça essa promessa: um destino que se faz pela palavra, pelas estradas e pelas conexões. Do cobrador de ônibus ao articulador das redes digitais, os caminhos mudam de matéria, mas conservam sua função mercurial de estabelecer passagens entre mundos.


A astrologia, como vimos, nasceu também da necessidade de compreender os destinos coletivos. Sua história participa de uma cosmovisão, fundada nas correspondências entre os acontecimentos celestes e terrestres, na qual a vida humana está implicada numa ordem cósmica. Interpretar essas correspondências é também exercer uma espécie de cosmoanálise, reinscrevendo os acontecimentos ordinários da existência numa narrativa simbólica e mítica. O cobrador de ônibus, a estrada, o mensageiro, a palavra que atravessa o país: é dessa matéria cotidiana que a interpretação astrológica se ocupa, oferecendo outras possibilidades de leitura e reencantamento do mundo.


Retomemos as Moiras e os fios do destino. Na trama que elas tecem, cada vida participa de uma história que a excede, e é essa dimensão coletiva que nos interessa recuperar da astrologia mundana. No mapa de Janones, a Lua reúne, Mercúrio comunica e Marte planeja, personagens de uma narrativa entre a Terra e o céu, entre a vida particular e os acontecimentos políticos de uma época. Reconhecer essas correspondências é também perceber nossa participação nessa mesma trama, na qual a história de um é parte da história de muitos.


Brava gente brasileira. O destino é coletivo e se faz em rede.


Agradecimentos




Dito tudo isso, eu agradeço meus pais, por me apoiarem, a ser a primeira de nossa família a ingressar em um universidade pública e federal, e por acolherem a minha paixão pela astrologia, em seus incondicionais apoios. Agradeço ao me professor de astrologia, João Acuio e a todos os meus alunos e alunas dessa escola, que trazem em minha vida um sentido de comunidade constelada. Agradeço todo mundo que esteve comigo nessas semanas de pura tensão, à beira de uma tragédia, da qual escapamos. E agradeço ao presidente Lula e ao general Janones, por abraçarem bravamente seus próprios destinos, e nos destinarem a um país que insiste bravamente em ser democrático.


O Destino não é trágico, trágico é não conhecê-lo, trágico é evitar vivê-lo, trágico é não implicar-se no próprio destino, singular, e saber que somos parte de um Destino maior e coletivo. Aos companheiros e companheiras do Exército do Lula, meu abraço. Salve, salve! E se quiserem uma consulta astrológica, ou precisarem de uma escola para estudar astrologia, já sabem onde encontrar.

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